Quarta-feira, Dezembro 30, 2009


Trajeto da agonia

Largas passadas de quase correr:
O instinto do medo abocanha o bicho de si.
No trajeto da agonia
Esconde a espessa camada de pânico,
Rasga os rincões da paz.
Suor serve de mar
A um rosto crivado de tonturas:
Nauseia-lhe o beijo que não deu.
Águias lhe palpitam
Fervidas no delito das artérias.
Os olhos não valem doçura tanta.
Afeito ao brumoso da vida,
O ar não lhe chega, não lhe basta.
Bafeja o deus da guerra, sem oferenda
Do sonho vaza para um real cortante.


Gotas do mar



Segunda-feira, Novembro 30, 2009


n o t a s

meu olhar perante o espelho, rodeado de sombras, desvanece a vivacidade do ontem. pura e livre, aconteci. aí veio segunda feira.

o de sempre. rota, rota, rotina. o silêncio, que é quase sempre um deleite, agoniza em dias assim, desmerece gemidos, estrelas.

afoita, incinerei os véus da tarde. havia o tempo. o tempo eu comi. por afronta. varri o incômodo pro enigma das palavras, que me abraçam com seu corpo de relva.

esqueci as que não dizem desmesuras, viés da paixão. despertenci, sorrindo, aos olhos dos outros.

então ontem, que era mar e suas latências ventando, estive, pura e livre, acontecida entre ecos de olhos que se disseram. paixões de ventar versos. ventarei mais, e sempre.

trouxe para mim uns livros bons, de sol e lua. esses franceses.. ah, os que queimam! noir ardidos. éluard: seus últimos poemas de amor devoraram meu corpo de caçadora e presa.

caço, prendo. a inquietude hoje me altera os nervos de um jeito que, inclinando pra onde correm as cascatas, abrigo as fontes.

descobri que já rejeito o silício nos olhos. e que, brancas, as pernas povoam o mundo, ao sol das quatro. lânguidas, gratas.

o suor nos cabelos não mente: ardente o ouro da primavera. aqui, inventam que é bom a brisa de um ventilador.

por hoje: rejeito o que não é rocio.

persiste, se não o roçar morno que se entende por flor, a morada de claro-escuros vivendo nos olhos que clamam.

cintilâncias: rápido tempo de pertencer. protesto e parto.

desatinada, a léguas daqui, onde me querem branda.


Gotas do mar



Quinta-feira, Outubro 29, 2009


Quando me faltam asas

Sinto que me morre um pássaro
Quando me faltam asas:
As serpentes estão lá
Se esgueirando pelo chão.

Nos rincões da morte
Nudez, mornos vapores
Não voaram.

Não me cabe contestar o vento
Nem amputar o espanto
De brecar a decolagem.

De repente, a palavra empalha,
Empilha nos túmulos
E nos estilingues.

Passaredo engano,
Tão só palavra
Paliativa.


Gotas do mar



Quinta-feira, Outubro 15, 2009


Amava

Foi o aspecto das mãos? Ou o verde dos olhos, inesgotável, aclarando a vista pra mulher à sombra da menina?

Ardia, silenciado em espanto. Era dor, ambígua e inaugural, abrindo caminhos pelo sal de lágrimas. Mãos tremiam abandonos, quase em prece, ensinavam o adeus.

Os olhos marejavam mergulhos num mar que derramava. Intacta verdade: amava! Num ventre de menino, nuns olhos verdes e doces, as águas de si cresciam a despeito da dor, do espanto. Crescia, sem remorso pela dor, no que era compensado pela pureza de primeira vez. Outrossim, encanto.

Acenava o adeus. Era um ato solitário, contemplativo, revelador. Havia o prenúncio das delícias que estavam por vir. Mas a pressa em vivê-las atrasava a felicidade. Sentia um nó na garganta, dificultando a respiração. E o tremor das mãos, que não terminavam de dizer: adeus!

Despedia-se. As mãos doíam de um jeito, e os olhos eram mares de furor e delícia. Que torpores!

Dava adeus a um tipo de inocência, certo dom de ignorar que as crianças têm. (Elas ignoram nossa menção ao romance, sempre árduo. No coração de uma criança o amor é matéria prima irmã de suas brincadeiras preferidas. Criança não sabe dos abandonos que a sucederão).

Bem há pouco vivia o panteísmo das crianças, graça de um tudo. Colava seus ouvidos no ouvido do tempo, e escutava a anunciação da vida. Brotava a vida, toda nova. Pouco se lhe dava a solidão de existir: um mundo em si!

Dor pela criança que se ia. Meninice gaiata dava lugar a um sôfrego coração de moço. Contaria as horas pelo descompasso ritmado do peito.

Escreveria depois: os mistérios do amor são mais dogmáticos que quaisquer religiosos dogmas.

Muitas vezes mais doeria, imensa e mansamente, reconhecendo os sintomas dessa dor. Ela não sacia.


Gotas do mar



Terça-feira, Setembro 29, 2009


Meus símbolos são insígnias que recorrem:
flores, selvas, febres, águas.

A coisa nunca é só e mora na pluralização.
Como estertores.

Ou violinos que enlouquecem
cordas do meu canto.

Isso costuma se dar em bosques, poentes.
Até pontes! Geralmente à beira de algum abismo.

Essas palavras, essas que aviltam o novo,
moram no mistério suspenso de signos ciclotímicos.

Marcham aliteradas, assonantes.
Vivem a disfasia do enredo.

Não há aparte que se faça no pacto da significação.
Também não há fuga.

De praxe, vêm. Polinizam os mesmos mistérios brancos.
Caem à maneira de chuva, de pétalas: atemporais.

Docemente, nadam, nadam.
Pra morrerem no mar de Caymmi.


Gotas do mar



Sexta-feira, Setembro 25, 2009


Estivesses aqui
Eu olharia fundo para as águas todas
Dos teus olhos e dos meus
Entre não calar a fonte e orvalhar
Apenas o beijo que tarda os aromas
Colhendo flores, manhãs
Da tua presença de ninho em minha pele
Unguentos pra dor que pedes que eu cale
Que amanse a égua, a nevralgia
Que rasgue as horas em que tateias
Os relógios mudos, chumbo cravado
O teu peito ressaca limites
Destronando sonhos, marés nossas
Amortizadas por dívidas que não se pagam
No teu ventre as mesmas águas famintas
Concavidade das chuvas, dos ontens
Por onde eu mergulhava a minha fé
Obstinada por teu corpo desvelado e branco
Arremetia as quimeras, fera adentro
Estivesses aqui
Por bosques do amor que derramo
Na taça da tua boca, vermelha e árdua
A desarmar precipícios

Gotas do mar



Quinta-feira, Setembro 24, 2009



Só para registrar que há vestígios de algum recomeço .
Aqui também continua, porque essa sede não sacia.


Gotas do mar



Terça-feira, Setembro 15, 2009


O som da nossa infância

Não inaugurou três anos antes que eu também nascesse para velar sua harmonia de menino. Como em todos os processos irreversíveis de entropia, crescemos irmanados, sistêmicos, no seguro calor que nos mantinha intrincados, unidos, desde pouco mais que o berço. Mesmo mais velho, pôs seus olhos de ânsia brandura sobre mim. O olhar que cavamos em criança, eu arguta na sua melancolia, determinou o fado de estar sempre ao seu lado. Não era necessário que disséssemos, ainda muito cedo, da estranha necessidade de permanecermos imbricados, parelhos no tempo-espaço, afeiçoados. Assim estivemos, ano após ano desse princípio, que trouxe sua fé pelos enigmas, pela natureza, e a veemente brandura do seu olhar. Juntos, só que santos, enquanto eu aguardava que fraternos morrêssemos para nascermos amantes. Inexaurível promessa que depositei em nossos senões. Se não era eu que sonhava com o que você haveria de me dar, fermentada na idéia me salvar do desterro e viver o nosso talvez atávico caso de amor! Se não era você que me usurpava do seu leito, talvez mais brando do que conviesse... Éramos nós que nem sequer no auge de nossas urdidas tramas de cegos encontros, promovemos os abraços. Nem movemos os corpos na sagrada dança de ocasos, plenilúnios, e outras mitologias densamente sonhadas. Eu me bordei de expectativas por nosso glorioso futuro, menino, glorioso. Sabido que era pra sermos um par, e costurarmos juntos nossos destinos. Deixamos escapar a palavra que se inventasse no correr da pena, até formar o contorno duma história. Que era isso e hoje é poeira e pesar? Distanciados do acordo que velamos em velhos mares, o já remoto da infância e com ela outros muitos fatos aleatórios que precipitaram o aparte, saídos das dobras de uma vida fundante pra uma vida infundada, afundamos nós dois. Nós dois, mais ninguém. Falar da nau louca que nos leva, já adultos, já sóbrios, já dormentes pra onde não há farol, não há porto: nisso testemunhar os percursos da memória e tirar dos anos esse gosto perpetuado do silêncio que era a arma da delicadeza, perigosa contradição de termos. Eu não percebi que não dizendo, eu não viveria, porque você, já bem posto na vida, largaria meus pequenos implícitos gestos de amor para arriscar sua guerra particular. Como não percebesse que eu sumia para amainar o lamento, parti então bem mais velha que você, acumulada das histórias da mulher e mãe que eu não fui. Você me deve isso, meu menino, que me olhava com a pureza colorida dos primeiros anos, ali nas brincadeiras de mulher e moça que eu sonhava ser. Era tanta a certeza, tamanho o bem viver dos olhos, verde ou mel impregnados da suprema poesia. Deve a alegria que eu senti e sua robusta pressa me tirou, por se delinear bonito e moço antes que eu. Logo ali pouco mais de um, dois anos, no máximo, eu alcançaria a mesma mocidade e engenho para os beijos, as armadilhas, para vivermos a enchente, a selvageria. E fruir os frutos. Você me deve a dor do parto, que não tive, o espanto de amar, me deve a lembrança que já se perde no fundo de um móvel, onde, recostados à sombra do suor dos outros, arriscávamos que nos vissem ali e interpretassem errado o que era certo, abrasado. A gente ali repousava do cansaço de correr com pedras nas mãos e ria de não entender porque corríamos com as mãos nas pedras, para depois depositá-las, numerosas de salgada aventura, num velho armário carcomido de cupim, oco de lembranças subtraídas para melhor se esquecer. As formas múltiplas-mundanas-minerais do meu coração. Conjecturávamos que nos tardar de anos, muitos anos, revistaríamos o mesmo móvel para receber as pedras que eram o testemunho da passagem do tempo, e a um dado ponto, da nossa necessidade de permanecer. Antes dos livros, pedras. Ao fim se revelaram inúteis, primárias pro que intencionávamos. Avancei das pedras aos livros que guardavam o mesmo cheiro da espera. Abri caminhos na solidão, largas cicatrizes. Porque o ideal não se cumpriu, inventei histórias, reviravoltas de calar martírio, longas marchas rumo ao canto que libertasse essa voz sempre guardada, esse silêncio, fastígio das duras constatações. Antes, doce limite do que mora dentro. É possível que ele triunfe, ainda e sempre, gentil e mortal entre nós. Mas, quem sabe, eu possa revê-lo com os olhos pueris que não temem os anos, momento épico retorcido da ilusão que ambos alimentamos com o som da nossa infância. Não leve embora da minha memória, meu menino, a sua risada jamais corroída pelo tempo, mas me diga, de uma vez por todas, que você não vem.

Gotas do mar



Quarta-feira, Setembro 09, 2009


L Â M I N A S



Dardeja a chuva
Granizos do meu grito
Pastos, ruínas, bauxita
Antigas odisseias de menina
O vão metal resfria
Inerte na têmpera do sagrado
Morre o mar
Que choro em Minas
Fundo desejo da paisagem.


Gotas do mar



Sexta-feira, Agosto 14, 2009


Céu de Agosto


“Cai a tarde
como sempre
como sempre diferente.
Cai a tarde
de onde não se sabe...”

(Adriana Calcanhotto)

Eu, que nunca me acostumo ao azul de Agosto, não me acostumo a azul nenhum, precisava vir me despedir do céu, especialmente hoje, grata por seu turquesa matinal, tão inspirador.

A beleza viva da manhã, ainda viva na memória, de um limpo esplêndido azul, já não mais repousa a promessa de Setembros em flor. O horizonte é agora um fim de dia.

Recebo o negro blues da noite, que já vem. A tarde é cálida, de crianças, cachorros, e os velhos de banco de praça, com suas pombas famintas. Sempre os vejo por aqui, a caminho do trabalho, ou de íntimas paragens, quando deito sentimentos num papel, saboreando cachorros-quentes, epifanias.

As pombas quase me engoliram. Foi o banco que eu sentei ou quem sentou aqui, antes de mim, com seus sortilégios, seus restos de pão. Como que numa emboscada. Mal sentei, vieram tomar seu posto, de prontidão que estavam, voando raso, ameaçadoras, em minha direção. Muitas, furiosas. Por pouco, e não haveria escapatória.

Sabe-se que a estas horas o local é disputado, sobretudo os bancos e os brinquedos. Só que tamanha fúria desconcerta quem chega assim, querendo a paz e o limpo de um céu azul, turquesa lembrança. Por serem quem são, pombas de velhos que lhes dão de comer, ávidos pela pureza da fome, perdoo a suja versão do Espírito Santo.

Afinal, uma tarde de muitos jogos e pernas. Bolas voam, dos pés meninos para o gol, e de novo para os pés, sôfregos, ardentes da disputa infantil. São muitas cruzando minha vista: brancas, azuis, amarelas. Aos risos e berros deslizam, maníacas ou doces, por mãos quem ensaiam o saque, o chute certeiro.

Árvores testemunham travessuras, voleios, e pombas assassinas que engolem moças, pela sanha das letras de seus cadernos. Sacolas levam meu olhar para casas de família, bares, puteiros. Homens vestem improváveis paletós. Testemunho as árvores, e a mão que, imperiosa, ensaia o apego à fria tarde, enquanto espero as pombas voltarem, para um revide, talvez.

Na graça de um charme, a menina, com sua boneca, sentou no banco mesmo em que me expulsaram, e não havia pombas, apenas expectantes voadoras, que pararam para observá-la, transtornadas, enternecidas. Depois um bebê, e seu balde. Inútil, sem água, sem areia.

Com a mesma solenidade sem propósito, um homem ao meu lado senta-se para apurar seu visual. Ele ajeita a gravata, que retirou de uma sacola imunda, para depois vestir o terno, enquanto eu me pergunto - ao vento, a noite já nascida - por que sempre o surreal acontece quando estou aqui.

Atiço de rir com o que me frustra, quando o homem tira de sua sacola de mistérios só uma alaranjada conta de luz. Não diviso números, mas conjecturas: acaso ele espera por seu advogado? Pobre e sujo como a pomba, absurdo como eu, não mais que um personagem da história solidão.

Ato contínuo de surpresas vastas, muitos caminham, juntos, separados; para suas casas, seus poentes, para debaixo de suas pontes. Vão felizes; desesperados. Emaranhados na teia de seus passos, recolhem da paisagem algum remoto pensamento, que é possível entrever pela maneira como olham o nada, por um breve instante, transfigurados.

Carrego, além do perfume do céu de Agosto, a cor do sangue preso no casulo de ampolas de laboratório, onde máquinas averiguam doenças, onde tossem e não há cores. Presa dentro de um frasco como esses, acumulada de sangue e papéis, passei a parte maior do dia. De um dia em que o céu me gritou veementes e enlouquecidos azuis, entre matizes outros que eu não pude ver.

Talvez por isso, ou pelo olhar mancebo que flagro nesse mesmo instante, entendendo pela primeira vez um corpo de mulher; porque a poesia não cessa de acontecer com o adeus do sol, procedo ao rito de minha despedida, vermelho na noite fria, enquanto os postes inauguram a era das luzes artificiais.

A meio caminho de um choro, uma risada estridente, à noite ratifico o que leio pela manhã a respeito dos homens e seus sonhos. Inquietações, perguntas que se formulam e desvanecem.

A gravata e seu homem chutam a bola, vorazmente, aflitos, querendo brincar. Mais e mais alto, balançam as meninas, rosas anunciadas, sem mãe por perto. Carrosséis não tardam a girar.

A fim de colorir a noite, escorrego; da luz congelada de um poste às ondas irisadas dos sonhos: mansa, dolentemente. Pombas voam para a Primavera.


Gotas do mar



Segunda-feira, Agosto 03, 2009


Perfume de Ódio

Então ela se virou para quem lhe revolvia seu perfume de ódio, entre a mágoa e o amor sentenciou:

- Eu não sou uma vadiazinha que leu um, dois livros badalados, julgou ali encontrar seu autor preferido, seguindo uma new trend de vazios existenciais. Uma gente moderninha, underground, uma gente metida a besta, cheia dos estigmas de uma arte de boutique: roupas de grife, com palavras de ordem, filmes cult, literatura souvenir. Eu só fui até a esquina. Provinciana sim, de pai e mãe. Entre o fim do mundo e o começo dele. Pelo menos, eu não desperdicei meu olhar fazendo o v da vitória em pontos turísticos. Não frequentei faculdade de shopping, onde cuidava que não escrevesse com s o que se escreve com c de carne, carne crua e você nunca comeu. Eu aticei minha brasa no incêndio da angústia, cumpri meu destino, cantei o meu fado, minha má sorte, as muitas mortes. Ressurgi o que em mim mataram, essa mania de blues quando nem é noite. Minha geografia é sangue, mapa dos sem volta, possesso e trágico vôo que não se faz com ácido, mas com tormento, com algo chamado vida interior. Há quem aprenda a ponderação. Há quem reverencie Dionísio. E há quem reze em todos os altares só pra ver onde dá mais onda cuspir na cara de Deus, o que é mais triste. Eu reverencio o meu deus, respeito a primitiva essência, faço seita até pro meu ateísmo. Sei o quanto vale o que se ritualiza e se entrega. Vivo os meus vilões, descortino o meu verbo em ternura ou doença viva, eu não desisto, não me entrego. Faço um jeito de contar bonito o fim de uma ilusão. Não importa a carestia, de sexo, de pão, de amor. Eu conto moeda e na alma esbanjo a fortuna de quem sente em si a cicatriz do mundo. Abraço a causa, eu não visto a causa e saio por aí, um logotipo ridículo, um outdoor de clichês. E não venha falar de falta de referências, de excesso de informação, do neoliberalismo, de pais que competem com filhos, da estrutura falida de um projeto coletivo, do cacete a quatro. Esses bichos que somos comemos uns aos outros. A história se repete, talvez, sempre. É preciso que saiba disso, e ainda assim, que beba o sumo, o cruel da vida, delicadamente. O que grassa ao sagrado frutifica o tosco. Um monte de circunstâncias aleatórias, ou vaticináveis por um pré-determinismo de esperança, de fé. É uma questão de olhar ou de falta de visão. E vocês desperdiçam tudo isso, até o erro, virando nicho de mercado. Essa sua risadinha morna, sempre tão civilizado, tão humanizado, sempre tão na moda; isso amarga ainda mais minha decepção. Você não sabe onde dói a sua selva, sua serpente não enfeitiçou seu canto com o veneno de verões perdidos, nunca vomitou na vala infecta dos passionais. Eu exibo minha peçonha, violo querubins, faço correr a valsa atônita que sou. Sua paixão, a sua paixão se tatua.

Tão logo laçou a sua sorte, mergulhada em desengano, fechou com urgência a porta do carro, num pranto não menor que o trânsito de São Paulo, ardida num Corsa 97, comprado em mil prestações. Para nunca mais ver aquele que lhe doeria recorrentemente n’alma, até o fim de sua vida. No livro que não leu, também não aprendeu o que vida dá, nem o que a vida tira. Consciente de seu talento, pleno ou plano, era como se ofertasse ao mundo o viés de um gênio, estilo inconfundível de seu melhor momento. Para os críticos, era hermética. O público não a entendia. Nem ela, a heterogênea massa de leitores. Nem a si. Escreveu, entre outros, um livro de memórias, mais para calar a dor do coração. Vivia a lucidez, como também o auto-engano. Reconhecimento, só no mesmo circuito alternativo onde lhe roubaram o melhor do sorriso, o brilho de seu coração.

Gotas do mar



Quinta-feira, Julho 09, 2009


Dos sentidos e das recordações

Parte do que se vive, inventa-se. Interpretam-se dor e alegria. O que a gente lembra, ressignifica. Transforma em matéria-prima da transcendência.

Eu excedo meus calendários, nele ensejo imaginações. Enredada no tumulto de horas já extintas, minutos por contar, contradito a angústia e o prazer da lembrança. No labirinto da memória, no sorvedouro da imaginação: o tempo depura na ampulheta a finíssima areia.

Vivo no meu tempo e no de meu sonho. Devir de mesmos novos instantes, lançados ao fosso dos sentidos e das recordações. É lá que persistem as cores das muitas épocas, senil aquarela de tons vazados para o âmbar.

A atmosfera, barroca, adivinha sombras dos lugares em que estive e que inventei. Anacrônica existência. Ocasiões difusas desenham-se na mente.

O saudosismo não move essa marcha, é o vento que espalha em todas as direções, perfumes, gozos, poentes. Descostura caminhos, força eólica de invernos cedidos a vagas melancolias. E no meu lençol, hoje, o cheiro de velhas rotinas.

À minha frente, o futuro, moço devassado de premonições. Dilata o que é conhecido e mágico. Metaforiza-se em natureza.

Porque o tempo, se não é vento, é rio, seus muitos afluentes, descendo, subindo corredeiras, ganhando novos e imprevistos contornos. A cada ano, margeia coisas queridas, que vêm e vão. E a gente, com esse rio dentro, vive, saúda, e diz adeus.

Quanto mais se vive, mais se quer viver, quase que sempre. Teme-se pelo muito [pouco, sempre pouco] que se já viveu. Nascer nos desabilita a eternidade. Precários, aprendemos a notar fatalismos, despedidas. Mais por não sabê-los.

Precoce o sentimento que desde menina se entrevia na avó, sem que em ambas se ousasse ensaiar a partida. Convergidas essas filhas de Cronos, castigadas por grossa camada de rugas, infâncias mortas e ressurreições. Até breve, quem sabe -- arrisco uma tardia separação. Se o ocaso não suscitar a cadência das estrelas, e a poesia da fé não acontecer, talvez até nunca.

Ainda jovem e já tanta partida, quando o sol nem invadiu o fim da manhã. Meu destino, arder nas três gradações de um dia.

Se não houver despedida, porque a vida é soma de ineditismos e reencontros, os olhos, virgens ou cansados, continuarão a destilar nascimentos, divisando imagens antigas, e o deslumbramento das coisas vindas.

Gotas do mar



Quarta-feira, Junho 24, 2009


ESPIRAIS

- Eu gosto da sua voz.

- Mas eu não sei cantar.

- Eu gosto dos recônditos dela. De como ecoam os plurais, a maneira como a língua toca...

- O silêncio, o céu da boca? Não brinque com isso.

- Como sabe o que eu ia dizer?

- Não ia dizer. Eu que me antecipei porque senti vontade de me ouvir pra derrubar suas convicções.

- Só as agravou.

- Confesso: quanto mais baixo falo, mais me alcanço. E gosto.

- Alcança uma mística voragem, posso presumir. Liberdade morna, que se perde cotidianamente, convencionando modulações tolas.

- Exato, meu bem. Meu tom é de profundis, sem o qual eu sou só...

- Uma criança assustada.

- Como sabe?

- O que você é agora, fingindo surpresa.

- Eu gosto dessa intimidade forjada entre nós.

- Não é forjada a comunhão de nossos timbres.

- Ah, mas você tem voz de Outono, arrastando o dourado nas folhas, toda maviosa.

- Falou isso como um lamento, bonito, doce.

- E quando ri, faz rir o mar.

- Continue...

- O que sai da sua boca tem ritmo, atabaque, é ancestral. Cheio de desvãos, inflexões harmônicas.

- Gostou do jogo.

- Não é jogo, é música. Eu, sim, criança assustada, lembra? Sinfonia pálida. Sob o vinho ou sob a chuva, muito profana, a minha voz enverga pra puta, sem escalas. Por isso não levo a sério o que diz sobre ela.

- Mas eu gosto, já disse. Dos subentendidos imperando, como que medo, como que espanto. Incerta e silente, ela não se revela.

- É só jogo de palavras. Metalinguagem pra me levar pra cama.

- Não é jogo, é música, você disse. E não é metalinguagem, é metafísica. A metafísica da sua voz me interessa mais do que levá-la pra cama.

- Não nega?

- Não nego. O desejo. Como não nego a música. Nem o silêncio.

- E o que há entre música e silêncio? Entre desejo e cama?

- Sua voz.

- Minha voz testemunha a relva molhada onde recosto meu corpo sob a chuva.

- Chuva de novo. Onde leu isso?

- Eu inventei.

- Por que a chuva?

- Por que a minha voz?


Gotas do mar



Sexta-feira, Maio 29, 2009


Convalescente

Eu estava deitada, convalescendo; uma gripe muito esquisita, meio amidalite, meio gripe mesmo. Pensava na morte da bezerra, e na minha própria, que há dias tento respirar decentemente - quase sem sucesso - com o nariz que Deus me deu.

Deus também me deu um jeito melancólico e um ar torturado. Mania de enunciar muito estranhamente os meus prazeres, minhas aflições, como se não soubesse diferenciá-los. Acaso nem sei se sei. (Anseio que sim para o bem de minha sanidade. Ainda não me atrevi pelos pantanosos terrenos do masoquismo. Tanto melhor).

Estava deitada convalescendo com o ar torturado e melancólico de sempre, quando, fazendo a primeira coisa útil ou definitivamente inútil do dia estiquei-me longamente que sou em direção ao caderno verde para umas retorcidas e familiares palavras de evasão, despejadas, por ora, sem menor pudor, nesse inverossímil relato – livre, mas escabroso exercício do dizer.

Sem reservas, só com o resto da febre do corpo, nada metafórica, ditei o de mim, sentido e possesso: “Quando nada basta! O amor, o sonho, esse pranto da noite, a infância abstrata na memória, descosturando teus dramas... É que a vida...”.

Estaquei nesse ponto, desordenada como de costume, pensando no caráter desolador de ter no meu corpo vestígios não metafóricos de febre, além de sintomas nada poéticos que o vernáculo também não poetizou: coriza, tosse, dor de garganta.

Afoita que sou! Tão célere escrevi, rabisquei minhas linhas, afrontada com meu afrontamento. Elencar assim, num só e irresponsável jacto, num dia de insólita convalescença, meus termos essenciais: amor, sonho, infância, memória, drama, vida.

Martirizada pela audácia, desacorçoada pela incompletude de palavras que não pensei, mas senti, e assim quase sempre, pela febre sem metáforas, retorci foi o meu lírico pescoço: Tão urdida na trama da vida! Por que assim: tão funda, tão ferida? Quem você pensa que é? Quem foi que te feriu assim para aos vinte e poucos dizer: ’quando nada basta!’? Que afrontamento! Tão penosamente o pranto!

Quem deslocou meus moinhos de vento? Não sei. Quem os inaugurou à moda quixotesca? Tampouco a resposta. “Toda palavra é propícia. Se tem chama, ou se tem drama”, devolvi com a caneta desenhando as letras no papel. Ou seriam os moinhos?

Sabia e sei o fundo disso tudo. Lançada elas vêm, acesas desde o nascedouro. Mas não hoje, num dia vago de doença, não assim: “É que a vida...”. A vida o que? À vida os seus montantes mais vultosos que a sentença não dada! A vida por viver!

Não há possível equilíbrio na relação que estabeleço com meu texto. E às vezes cansa ou assusta a urgência adolescente com que as gaivotas aos meus pés pedem céu. Assusta e cansa sim, dar-lhes sempre e incondicionalmente o pouso mais fundo, partidas para marés nunca exatas.

Porque há dias em que certas palavras devem dormir o seu sonho fecundo, sem urgência. Dormir e convalescer, sem pressa a sua febre menor. Se não vira um pendor que me move a perder o chão. O mesmo chão em que pouso sem motivos esses meus pés de gaivota faminta. Eles partem para tantas vidas, não é? “É que a vida...”.

Não há tolerância para meus desregramentos poéticos. Motivados por enunciações, metalinguagens, dizem-se, à luz do dia, da noite, da morte. Assim eles são. Alucinados relatos das veias, que tossem as minhas falas pouco lúcidas, exasperadas da poesia incauta e virótica que lanço às febres de mim. Em mim.

E sem mais, convalesço. Eu convalesço de existir.

Gotas do mar



Segunda-feira, Maio 25, 2009


Fronteiras

Toco tua matéria com o pudor de um asceta. Obsceno afrontamento. Não obstante diametralmente oposta, persigo-te, musa dos pragmáticos, dos cartesianos. Prolíficos resultados guiam tuas estratégias. Eu abrevio minha selva. Desbasto a rocha, esculpida em nervos lassos. Mas meu cinzel é o grito. Remodelar essa pedra é matar vertigens, auroras que calo pelo abandono de desejos que não me evocas. Teus calendários, justa proporção de números, de estimativas, aturdem o atemporal que há em mim. Ainda assim te busco, desarvorada, mas reverente, talhada em raiva - a raiva que eu te tenho pela não consagração de nossos incompatíveis símbolos -, e mesmo autômata de tua perfeição, faço ritos para te alcançar. Sou das nuvens, dos cios. Carnes me vestem. Por isso, sonho. Não concebo retas; escorro, sinuosa, por arestas que talvez sejam nunca polidas. Inconforme, imprecisa. Avanço a ti, determinada em meu silêncio, mistificada pelo medo, lânguida, aflita. E o que me provocas é o que tateio em tua amorfa matéria: nadas sem rosto. Enquadramentos, perfilhações sem parentesco com o amor. Sinto que também me torno ora indefinida pela vital fronteira que ultrapasso, ferida. Tecnocrática, sangro. Só até que haja escândalo. Colore meu sangue impossíveis promessas.

Gotas do mar



Quinta-feira, Maio 14, 2009


Amálgama

A vida me persegue com seus timbres
Roucas vozes do acontecimento;
Nada me amedronta mais
Que a face intacta das coisas.

Tomo de açoite o banquete das rosas
Oásis de brancura estendem-se
Em escarlates ensandecidos
De-lírios à veia acesa.

Restam desertos
Que o sol, tresloucado
Chama de poemas.

A areia arranha o silêncio do pêlo e sua
Mistura de sal no sentido da pele
Perduram águas.

À sina de mim
Amálgamas vertem suas misturas
Que a pureza dos olhos
Chama pássaros

Circundam o mel do corpo
Venta, na eriçada
Flor do ventre.


Gotas do mar



Sexta-feira, Março 20, 2009


Tenho muitas ternuras pra contar. Palavras de sonho e sensações. Enchi uma pasta de euforias líricas, sóis desgarrados do ventre da poesia. Impressões brancas, douradas, carrego dentro em mim. E tenho, por cúmplice, a poeira das ruas, seus faróis, gente de todo lado, apressando passos, sujando muros, labirintos onde cabem faunas, melancolias.
Minhas ternuras, elas não me cabem. Cabem na noite, nos meus hinos. À cova da razão, minh’alma lavada em selva escava desejos na ventania. Dona de uns leopardos olhos, acesos na noite, fundo as raízes do meu sonho.
Tenho vilipendiado meus ardores. E, por isso, acumulado numa burocrática pasta a pressa d'alma insone, cheia de rubor. Ternuras muitas, recendendo chamas antigas, vastas dádivas da fome.
Sagrada ao rito, logro observar encantos na mão que pousa, feroz, letras foragidas da minha promessa de música.
Deus me quis aturdida e terna, repousada em versos bravios, maré alta; coisa acontecida em becos, açoitada pelo tempo.
Funda a incompreensão do meu discurso. Sentidos de abismos, versos, vertigens. Que víscera no visgo desse timbre? Modulo mansa nunca nula as minhas vísceras. Carrego o dizer como o destino infindável que abarrota meus muitos armários psíquicos, pastas da mente ecoando: abram alas, é vulcão.
Ternuras insondáveis. Teço, farejo na poeira das ruas, nos olhos desgarrados do ventre da poesia: sóis, leopardos, apressando passos na noite. Enchi uma pasta de ventanias.

Gotas do mar



Segunda-feira, Março 02, 2009


A fim de versos

Em Setembro do ano passado fui convidada pela Leila Andrade para participar com um texto na edição da revista cultural eletrônica Diversos Afins, da qual ela e Fabrício Brandão são os editores, ou "leveiros" como mais inspiradamente definiram. Não conhecia a revista, que me encantou pelo esmero de ambos na seleção dos autores, enfaticamente poéticos, mesmo em prosa. A densidade e qualidade dos textos me impressionaram e continuam impressionando a cada mês. Contos, crônicas e poemas abraçam-se num maravilhoso exercício de desarrumação de gêneros e fruição estética. Também destaco a abrangência cultural do e-zine, reunindo críticas musicais, resenhas sobre cinema, ótimas entrevistas literárias, trabalhos fotográficos comoventes e sensíveis pinturas de inspirados artistas. Nessa última edição tenho a honra de fazer parte uma vez mais desse trabalho. Aproveito para mencionar o fato e divulgar a revista. Vale a visita.

Gotas do mar



Terça-feira, Fevereiro 17, 2009


Daise gentilmente me convidou a participar do meme seis coisas sobre mim. Seguindo as regras, conto seis fatos e/ou confissões aleatórias sobre mim. Feito isso, indico ainda seis blogueiros para participarem, publicando eles também o selo que identifica a brincadeira.


Seis fatos e/ou confissões:


1. Não há dúvida de que minha ternura provém das Minas Gerais de meus avós. A delicadeza comovente dos olhos verdes da dona Olga, o amor com que ela executava cada pequena tarefa – cortando couve, falando dos mistérios de Deus –, transformou-me num coração ávido de beleza e poesia.

2. Nos últimos tempos meu domingo ganhou novas cores, delineando abraços que não antes. Domingo costumava simbolizar sólida solidão. Virou agora aquilo que se vive junto. Resume a semana, representa o amor.

3. Eu tinha uns seis anos quando escrevi: “E foi infeliz para sempre”. Infeliz é a história do passarinho que cai do ninho assim que nasce e é levado pra longe dos pais pássaros. O destino de toda a vida passa a ser a busca pelos genitores. Quando finalmente consegue voltar ao seu local de origem, descobre que eles já estão mortos. Dramática desde o berço, comparti veementemente a tristeza inexorável da avezinha. Senti-me vulnerável e mortal, talvez pela primeira vez.

4. Ainda de posse da Thalía que sempre me habitou, vivi dor profunda quando descobri que a história do miserável bom velhinho dos sonhos de Natal era só uma fabulazinha para aguçar a imaginação principiante de fedelhos – ou traumatizar infantes como eu. E como as crianças às vezes são cruéis, um amiguinho de escola me revelou a verdade com um tom de superioridade condizente a uma criança ferida em sua boa fé, e uma autoridade incontestável que sentencia: “foi meu pai que me contou”. Mas foi a minha mãe quem teve que ouvir: “Por que você me enganou todos esses anos?”.

5. Calada e curiosa como sempre fui, fiz do meu instinto de observação um hobby, uma necessidade. Escolhi observar velhinhos passantes, especialmente em praças. Encantam-me olhares, mesuras, sabedorias. Enternece-me a maneira obstinada com que, frágeis, agarram-se à vida, amando-a vigorosamente. A elegância de muitos me leva a um tipo diverso de saudade, genuína como as demais, só que diferente: saudades do que não vivi.

6. Tenho uma memória esquisita. Ela é arbitrária e não caminha no sentido das minhas reais necessidades. Sei que a memória é emocional, mas até minhas emoções me extraviam de mim. Numa época de abundância de informações e tempo escasso, recordo muitas vezes irrelevâncias. Mas o que verdadeiramente me aguça o sentido de lembrar é certa facilidade – hobby novamente – para a memorização de rostos. São variadas, numerosas as fisionomias que eu gravo, quase sempre sem me esquecer. Rostos sucedidos por eles mesmos no acréscimo dos anos. Em filmes, em ruas, em fotografias, álbuns, blogs... Tornou-se um desafio pessoal buscá-los na memória, projetar no tempo as feições, reconhecê-las ao limite da exaustão – e da graça da brincadeira.


Seis blogueiros que convido a continuarem o meme:

Adelaide, Angel, Guto, Juli, Lany, Mônica Montone.


Gotas do mar



Terça-feira, Janeiro 13, 2009


ARPOADOR



Lembro de tantos poentes
E todos doces
Melancólicos azuis de meu pai
Despedindo-se na explosão laranja da tarde
Lembro de tantos
Lembro tudo, sempre
Olhos pregados no ocaso
Absurdam vastos
Coloridos, cinzas, lágrimas
Comezinhas aves
Infância entre porvires
Livres matizes
Pôres-do-sol
Magnífico declínio do tempo
Aquarela lenta, generosa
Até o último feixe-luz
Lembro devotamente
Tantos
Todos doces
Poentes


Gotas do mar



Quarta-feira, Dezembro 24, 2008


Na tarde de verão

Caminho pela praça, cotidiano cenário. Quão dourada! Absurda, bela. O tom grandiloqüente revela o momento raro. Pombas sujas aturdidas de sol, céu de um azul arrebatador, algazarra feliz de infância, pula-pula, gangorra. Clichês. Não há clichês. Meus olhos têm a pureza ávida dos de um cego. Eu sou o espanto que ele sente se logra enxergar.

Surpreendida com tanto sol, dou-me conta de que finalmente é verão no Rio de Janeiro. Depois do castigo de muitas chuvas, e um cinza recorrente que desagrada cariocas, que tarde magnífica! Sorvete à boca e menos roupa: a alegria é geral, e há alívio que harmoniza todos ao redor.

A poética dos espaços públicos me enternece nesse fim de tarde, pós-trabalho. Nada exaurida porque não é pra tanto, eu me sento num banco verde, para mais minutos de encantamento. Meu companheiro de banco, um velho de olhar delicado e pele áspera, nem se dá conta de que cheguei. Eu não sei se ele tosse ou o quê, faz um barulho atípico, que por mais atípico que possa vir a ser, nunca ouvi ninguém fazer. Meio que tosse, enquanto acena pros seus conhecidos de praça e tarde, pras crianças que o olham com curiosidade. Quase sorriem. O sol parece ser tudo que lhe sobrou na vida. Não há nisso melancolia ou amargura.

Sob o mesmo sol, tudo o que sobrou da poesia desacontecida em meus dedos. Escrevo uma saudade com palavras de pássaros e meninos, uns versos quase belos, como em: sei da pele que goza o delírio do sol. Saudade misturada à ausência e à falta de tempo, ao pragmatismo de viver que inviabiliza a minha inspiração. Eu deixo pra depois e vou seguindo a jornada dos dias.

Hoje eu não deixo. O calor acorda os instintos, e é com instinto que eu escrevo. O azul do céu diz coisas impossíveis, que eu entendo. Ponho nos olhos a mesma ternura silente dos velhos que eu vejo daqui. Viveram muito, saúdam a quase partida, como quem acaba de chegar. Lambem a vida, vagarosamente, com sorvete e delícia. Tossem, sorriem. Viveram tanto! E têm uns olhos de criança.

Há pouco, tentei dizer tudo quanto foi verso, mas parei. Disse da euforia calada de viver sob o calor de quase quarenta graus, no fim de um ano em que tudo deu certo, e eu me rendi aos perigos da vida. Depois misturei com palavras sentidas e anunciei: acontece o gorjeio da ave na minha emoção. Desisti de dizer porque quis sentir o instante, não o dito, o vivido. As palavras, elas intensificam, mas também escondem.

Amanhã eu faço vinte e sete anos. Escrito assim, por extenso, quase me assusta. Eu sou uma menina ainda! Acho. Eu sou uma mulher crescendo, tímida e feliz. Vinte e sete anos: Isso dá quase dez mil dias. Dez mil dias! Eu não sei o que são dez mil dias. Eu não sei nem o que é um dia!

Amanhã vão me abraçar e dizer coisas bonitas. Eu vou me lembrar dessa tarde, e da Dona Menininha, que assim eu chamo por ausência de nome.

É que Dona Menininha faz aniversário amanhã, como eu. Eu faço vinte e sete, e ela, oitenta e quatro. Isso dá... Desisto de contar. Isso dá uma porção de dias.

Dona Menininha chega com sua roupa de verão, passos de quem não se agüenta. Minha nova companheira de banco de praça vem escoltada por duas moças que não parecem suas filhas. Muito atenciosas, pedem o lado mais à sombra do banco para que tão frágil ser possa se recostar. Mas com esse sol, ninguém escapa.

As moças, que devem ser empregadas da senhora menina, compram-lhe sorvete. Eu ouço música, porque desisti de escrever, capturada pela cena.

Dona Menininha toma um sorvete rosa, e olha o mundo com olhos castanhos e meigos. A imagem é tão bonita quanto o azulzinho do céu, limpo e pregnante. Ela olha o mundo, frágil, dolorida. Chegou aqui dizendo: aaaaaai.

Os instantes passam, percebo que ela já não dói. Distraída da vida, nem se dá conta de que a pele arde. É que a alma, purificada de sol, regozija-se no doce da boca, no encanto dos olhos.

Ainda entremeio uns versos na cabeça, costurando poeira e ternura. Eu olho o amarelo-metáfora-de-sol na camisa de uma criança, e esqueço, por instantes, dos que me ladeiam.

Eis que ouço: amanhã é o aniversário dela. O vendedor de sorvete, igualmente velho e poético, diz alguma coisa com um sotaque não identificado, depois sorri. Olho pro quarteto, sem acreditar muito. Com mesurado espanto, escapa-me: é o meu também!

Adentro à cena, sou personagem. E para o meu espanto, ninguém se espanta, sorriem pra mim, alegremente, como se soubessem o que eu ia dizer. O clima de filme do Almodóvar dá mais cor à tarde: absurdos acontecem, é natural.

No breve desenrolar que se segue, perguntam minha idade e me dão parabéns. Com alegria natural e sincera comentam dos quase oitenta e quatro anos da patroa ou mãe. Capricorniana como eu, Dona Menininha frui seu sorvete com vento, alheia e misteriosa.

Poucos minutos se passam, mas logo me despeço. Carrego ternura até não poder mais. Ela atinge seu ápice cá dentro do peito. Preciso do esforço das pernas, pra sustentarem minha estranha doçura. A travessia pelas ruas de todo dia é lenta, apresso meu passo, não chego. Há um mar que atravesso: encontros, coincidências, passagens.

Minha imaginação, brincalhona e volátil, vem logo acrescentar que há quase três décadas eu e a menina dona nos encontramos numa praça como essa, lá no céu. Combinamos esse breve encontro, e assim como hoje, sorrimos uma pra outra, felizes, e desgovernadas.

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Escrito no final da tarde de ontem, com o despudor da inspiração que anseia tomar corpo. Tomou corpo, um corpo quente, suado, amoroso. Verão que se abriu infinito, sorrindo pra mim. Dedico essas linhas a Dona Menininha, que nunca as lerá, e foi fonte temporária da minha inspiração. Dedico, principalmente, a todos que eu amo, e que me ajudaram a transformar o ano de 2008 num período muito especial da minha vida, cheio de realizações. Obrigada por cada sorriso e cada aposta de felicidade. Brindo a tudo que virá.


Gotas do mar



Sexta-feira, Setembro 05, 2008


Eu sou aquela que, aflita de estrelas, carrega silêncios na pele; morena ou pálida, pequenos sóis, dignos de nota, ou de poesia. Tenho sabedoriazinhas, palavras, lágrimas que alimentam o mar, quando mergulho. Indiferenças, não muito diversas, obscurecem as noites minhas. Mas a noite não traduz as indiferenças que carrego, porque ela é crua e densa, funda e fecunda, cheia de honra. O que eu tenho quando assim é uma sombra de pequenos detalhes, que passam. Meu sorriso de beira de estrada é desabrido, doido, colhido da vertigem de um pássaro. Meu riso, tímido e nu, menina-moça que enrubesce, se obscena. Minha voz é a face apagada da lua num amanhecer, que reflete certo brilho, longínquo. No fosso escuro da noite, flerto com o abismo, e muito lúcida, alucino. Carrego sentidos de elementos primários: minha tarefa desde há muito é sentir o fogo na dança das palavras, a terra, na lavoura do texto. A brisa de correr insufla o ar no mar das letras. Sofro de selva, de doer, de sorrir, de me iludir, de viver: por isso eu vivo. E os meus olhos, esses faróis castanhos de ver mundo, brilham, silenciosamente, nas minhas aflições. Por isso seis bilhões de solidões, aflitas e humanas estrelas, conversam, existem comigo, por isso alimentam meu mar; eu, que sou aquela que, sem saber muito bem por que, ou até quando.

Gotas do mar



Terça-feira, Agosto 19, 2008


Na dança rendeira da agulha, meus dedos cingem, ornam. São fios. E sangram. A costura no branco da folha. Virgens, meus dedos bordam. Desabotoam, e por isso desabrocham. Desenham a lápis, contornos, dobras.
Sangram, num retângulo cheio de vincos: páginas perdidas. Rematam, retalham, fiam. Porque é tempo de fiarem. Porque é tempo que dá liga, é tempo.
Meus dedos, que souberam, que fiaram outras histórias, desenvolveram, outrossim, o árido trabalho da espera. E esperaram. E fiaram - dessemelhantes tecidos. E cortaram. Meus dedos sangraram.
Cada légua de tecido que cosi - coser é o meu dom, desvesti-me de mim. Só em parte - as anáguas eram minhas.
Eu, que sou todas, mas sou só eu mesma, vesti metros do mundo que quase nunca me coube. Somos nós dois, hoje, a linha, a fibra.
Eu, que sempre vesti o meu dentro, vesti o meu fora.
“Tudo está vestido de solenidade e nudez”¹. É, Sophia, eu me vesti para poder ficar nua. Revesti-me das tessituras férteis das planícies, já que abismos sempre me cobriram.
Vestida de mundo, ciosa do desejo dos meus dedos, não fui, não voltei. Estive. Liguei. Uma bainha, um fecho.
E o meu coração, sem desfecho, ritmo do meu sangue, extensão dos meus dedos - que sangram -, o meu coração rajado de fusões está aqui, peça principal, modista da minha poesia.


(A poesia me conserta, e desconcertada, eu conserto a poesia.)


¹ Sophia de Mello Breyner, As Grutas.
Fotografia de Mira J., extraído deste blog.



Gotas do mar



Quarta-feira, Janeiro 03, 2007


O infinito a minha frente pede
Olhos mareados de horizontes,
Meus limites não diviso
Senão no que concebo da vastidão de mim.
Contenho extremos de estrelas de céu mar
Faz mistério de leste a oeste.
Gigantesca, aposso-me da brisa,
Do sol derramado,
Das peles que queimam verões.
Antes de chegar o amor e arrasar
Com toda simbologia marítima,
E me fazer crer que a imensidão vagante de mim
É você, que gira gira o sol,
Perfuma minha pele,
Gira gira o amor por dentro,
Do que contemplo nessa tarde já ida
De pássaros e de meninos.

Saciai-vos:



Sexta-feira, Dezembro 22, 2006


Do meu pai herdei os olhos de poeta e a imaginação de sonhador. Do meu pai os cabelos, pernas, pés e melancolia. Esta ausência de tudo, distraída, e o sorriso maroto. Do meu pai herdei o amor de minha mãe.
Da minha mãe herdei a postura, o falar manso, a voz pausada e a maneira de vestir. Da minha mãe a ansiedade, o amor fecundo, o carinho imenso.
Síntese dos dois, surgi assim, meio poeta, meio menina. Tímida e sacana. Delicada, intensa. Carioca e mineira. Mar e montanha.
Dos dois o amor ainda adolescente, um medo avivado no olhar. Refreio, sublimidade, profanação. Uma ousadia tímida, mas ousada. Uma forma inaudita inaugurando a imensidão.
Por causa dessa mistura quis o destino ou Deus que eu fosse abstrata, metafórica, notícia velha, desde menina, memória. E grata eu sou pela confluência destes rios azuis que são meus pais, um meio anjo, outro pássaro. Este, coisa aturdida, aquele, flor em rubro instante.
A minha história é um pouco da trajetória deles. O meu ponto de partida é um ato de criação. Por isso invento meus dias, meus sóis de Van Gogh, por isso o meu arrebatamento ante as coisas que não existem, senão na imaginação. Amo o que foi, e o que está por vir. Meu presente é invenção dos dois.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Dezembro 20, 2006


Sei que um dia quis ser ave. E que de menina trago os olhos cheios de espanto. Perplexa ante o mundo que sinto pelas pontas dos dedos e pela profundidade do coração. Sei que essa ave, símbolo da liberdade, voou por aí. E que vem me buscar nas noites de sonho sereno, nas noites de lua, nas noites negras como o negro dos olhos que ostenta esse bicho lindo. É mais que um símbolo, mais que paixão, é a identidade de uma alma aprisionada a um símbolo, a um rudimento de alma, que é o que os bichos têm. Rudimentos cá e lá. Porque é inegável a afinidade que sinto com as coisas nascidas num silêncio de instante, de instinto. E o que se ouve da morte? O que se ouve da vida? O que se ouve dentro do homem, do bicho, dentro do mistério de Deus? Olhos cheios de espanto, olhos de perplexidade pelo mundo acometido. Olhos de acometimento. Escrevo o mistério da ave, e ela é o meu mistério, o mistério de um amor.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Dezembro 18, 2006


Sono em suspenso, madrugada quente. Suor nas idéias, pensamento insone. Lembranças remotas, semi-vividas, que não me trazem nenhum tipo de saudade, mas o desconforto de não terem tido desfecho. Nem materialidade, quantas vezes. Saudades tenho do meu ardor juvenil, confesso, desse suor que hoje sua novamente a face, acelerando as sensações, oferecendo-lhes textura, cheiro, semântica. Oferecendo-lhes poesia. Sim, saudades do gosto, do rosto, de antigos trejeitos, transeuntes das minhas ruas, ou bichos das selvas de mim. Ainda assim, sei que não trocaria de instante. Este o mais belo... Encontro no meu presente tudo aquilo com que sempre sonhei. Beleza, reciprocidade, afeto. A história outrora aguardada. Construo o que há de mais sublime na existência. Sou fiel a tudo isso, a eternidade desses sentimentos, ao tanto que me renovam, e também resgatam a verdade de menina, que sonhava o amor. Carrego um sem número de reticências, mas também vou fechando lacunas, acrescendo pontos finais. Abrindo parágrafos, preenchendo páginas de um branco tão pálido como eu, com o sol do amor que faz em mim. É (pra sempre) Verão.

Saciai-vos:



Domingo, Novembro 26, 2006


E de repente me lembrei. Assim, subitamente. O coração quis o beijo devorado pelo tempo das coisas tardias. A alma ficou mansa, grávida de um desejo bonito. Perigoso querer, na alvura destes instantes. Galopes e saltos das emoções ferinas. É que cabe acontecer deste jeito, perdidamente iludida de amor. Principio na descida de mim, e é tanto sol! Queimo, ardo, às vezes sufoco com tanto lirismo. Tenho medo de ser ferida, porque o meu instante é o das coisas breves, eternizadas pelo momento poético. É tão fácil que pareça leviano, mas é trágico porque não há rendição, muito menos modo de escolher.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Hoje o dia está lindo. Eu olho pro sol e acho que ele quer me trazer alegria. Me mostra o poder do dourado na pele, as flores que vicejam por sua graça. Eu o enfrento de igual pra igual, em minha soturna palidez. Mas o sol escapa ao meu entendimento, e eu ardo. Simplesmente. Sou agora uma de suas presas, me visto de amarelo. Só imagino o mar que daqui eu não vejo, um azul profundo como os olhos da minha bisavó. O tempo não está para saudades, mas para ações. Ainda assim, uma e outra saudade latejam no meu ser. Queria poder brincar de encantos. Minha magia seria assegurar poesia para as próximas gerações. Eu cuidaria das sementes e das primeiras safras. Uma plantação de vernáculos líricos, estrofes fertilizadas, versos bem nascidos. Todos os dias, poemas seriam concebidos. Meu ofício, comum a outros, continuar a sonhar. Sem medo de arriscar universos fantásticos, e de fugir à verossimilhança. Hoje sonhei com livros sagrados escritos por homens comuns. Sonhei com uma nação justa, com diferenças que eram somadas, mãos que ajudavam outras mãos. Delirei de esperança. Acordei e o dia estava assim, lindo, sorrindo pra mim. Torço para que seja um sinal.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Sorrio pra manhã nascedoura. Tenho no rosto o resultado da noite sem sonho. E há tantas chagas nessa olheira secular. Há histórias de caminhos perdidos, de outonos sem testemunhas, e de primaveras só há pouco germinadas. É mistério este doer imaculado, sereno, quase uma conseqüência de viver. É um doer manso, dor de parto, porque cada instante é a vida. E não se traz ao mundo sem dor. É isto, portanto. Estou sempre trazendo ao mundo este eu mesma cheia de emoção. Vivo às vísceras, às vésperas de mim. Sou o que está pra acontecer e o que não serve mais. Sirvo pra sonho, pra paisagem, pra ventania. Sirvo pra poesia. "A poesia é o presente", versejou Ferreira Gullar. A poesia é a minha inteira, de cada sorriso matinal abrindo as cortinas do mundo ao negrume da vaguidão insone. Sou esse eterno metaforizar-me. Sinto esteticamente. Consisto em criar. Minha existência é verbal, os caminhos do meu mundo são flores feitas de palavras. Meus jardins são frases inteiras. E a cada letra que nasce, revivo em mim a certeza etérea que justifica meu viver.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Julho 19, 2006


Meu rosto relembra suas mãos na distância do contato. Ele é a terra para o seu plantio. É a promessa da flor que você colherá. Colhe, pois, flores de mim, nas faces encharcadas de poesia e lágrima. Colhe esse viver cheio de pranto e medo indócil. Vele por mim, pelo meus ventos, que remexem crinas, destrançam cabelos, espalham as sementes que sonham com pétalas. Me ensina a fertilidade do sorriso. Vem sazonar meus frutos, cultivar minhas plagas, chover sobre mim. Vem pra me fazer sua. Vem que eu preciso tanto. Vem que há relâmpagos, e os granizos ferem. Há um assombro na menina dos meus olhos. Há um rio nascendo nesse castanho cheio de amor. Transbordando a alma, nutrindo meu amanhã. A vida me arremessa frágil sobre os campos do mundo. Sem grãos, sem sementes, sem terra. Só com o sonho da flor. E com o sonho da flor eu faço um jardim na sua alma. O sonho e a flor você colhe com suas mãos de ternura. E o impacto de tudo o que não sei e sinto fortemente nas artérias e no incorpóreo ser, faz na minha alma uma paisagem a mais.

Saciai-vos:



Terça-feira, Junho 20, 2006


Graça natural de quem possui uma delicadeza. O efeito dela sobre mim, compondo em meus dias sinfonias de acordes perfeitos. De acordo com o coração. Felicidade que inaugura com flores o presente, apruma o olhar para o futuro, quer para sempre, sabe dentro, mora onde há chama, deleita-se de bem querer. Quase consigo entender como uma grande alegria também dói. Devagar, surdamente, como ser humano e querer ser anjo. Como ser anjo e desejar ser terreno. É sublime e carnal. Depois dessa dor que não é bem dor, o corpo aquieta. E então, sorrisos. Apenas sorrisos. Dentes, olhos, duas bocas, alma presa à alma, e uma certeza milenar. E o que mais sei, se não que amo? Amo. Logo, sou dela. O que mais sei? - pergunto-me. Registro que sou esta, mulher atravessada de carinhos, de novos sóis, consagrada ao que restou de mim, nesta fusão de sentires, neste enroscar de pernas, no que nunca mais é abandono.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Junho 05, 2006


ALMA 1: um pensamento? um nome? uma lembrança? um desejo? qualquer coisa! e eu já terei mergulhado... basta um sinal seu, mínimo! não pode ser tão difícil... e eu não me sentirei tão só.

ALMA 2: é como se eu parasse por alguns instantes pra dar tempo da alma assimilar o mundo.

ALMA 1: mas assimila comigo!

ALMA 2: ...pra dar tempo da alma compreender...

ALMA 1: dê nome a uma sensação, apenas uma! me de a mão com a palavra, enquanto não posso mergulhar pelo mar dos seus olhos.

ALMA 2: é a alma apressada tendo que diminuir o ritmo pra poder acompanhar o corpo, os acontecimentos... eu acho que é isso, não sei tb. nunca pensei sobre isso.

ALMA 1: viu? é tão bonito quando se compartilha.

ALMA 2: mas eu não me nego a compartilhar.

ALMA 1: mas se negou a deixar eu ir com vc, qdo não me deu a passagem, não fez ponte comigo.

ALMA 2: como é que no meio de uma conversa vou te dizer: minha alma está parada.

ALMA 1: pq não diz? seria adorável! eu entenderia, e naõ ficaria mais agoniada.

ALMA 2: mas se em algum momento alguma coisa estiver errada, eu vou dizer.

ALMA 1: eu sei, mas não é por medo ou por insegurança que eu peço. é a vontade de embarcar junto, só isso.

ALMA 2: se é só vontade de desacelerar a alma tb por alguns instantes, seja bem-vinda.

...

vc é tanto aqui dentro, é só o q sei. sei tb que sangue faz parte. que lágrimas, que dores... mas eu queria que soubesse que se eu abrigo a virulência, eu abrigo também o amor mais suave, mais doce, mais sincero. ainda verei o dia em que todas as nossas lágrimas - de dor e de alegria, de revolta, de amor, de superação - irão florir. já estão florindo, aliás. viu como nosso jardim é lindo? :)

...

Saciai-vos:



Sábado, Março 25, 2006


Te escrevo com fome e silêncio. Fora das convenções, fora da lógica, te fazendo doer, porque não abro mão do que sou. Mas teu nome, não sabes, está pregado em minha boca. Até quando? Não importa. Quem sabe até sempre? Deliro-te. Deliro de ti. No meu refúgio de girassóis, no meu exílio voluntário, no cansaço, no recomeço, na esperança, na solidão das horas mais minhas, em que me revejo e renovo. Em que convoco enigmas, inexplicações, distancio-te para te ter mais perto no paroxismo do reencontro. Despejo e desejo. Carinhos e urgências. Oscilo extremos de agonia e gozo. Sou aquela que na ausência doce te ama até a morte. Até a morte do instante. Me preencho com a falta, adentro todos os labirintos, me perco pra te achar dentro de mim. Achar o mundo; e vou de mundo em mundo te achando e perdendo. Esta sou eu, meu bem, sem aviso prévio, improcedente, doce, mas tão doce, percebe? Afeita ao afeto, só que arredia também, tudo de sim, tudo de não, talvez quase os dois. Eu não sou só um jogo de palavras. Eu sou a afirmação da minha inconstância. Assumo, assumo meus contrastes. Esgoto em sombra e renovo em luz. Te quero com a minha cara amassada de sono, te quero da torre dos meus delírios, te quero no presente, te quero aqui, e na terra que é só minha, com a urgência dos verões, e na nostalgia dos invernos. Com um jeito de nunca, platonicamente, com um jeito de sempre, possuindo com força. Perto e longe, do jeito que eu puder e quiser. Não sou egoísta, vida minha, sou a que não termina. Transito, oscilo, alucinada, responsável, contente e suicida. Cabeça dura, eu sei, eu sei. Mas com tanto amor impregnado na distância, com um jeito de criança ardendo impulsos de presença, quando me dá na telha, quando estar perto é a finalidade a que me proponho. No seu colo, com medo, entre as estrelas que não tocamos, na poeira que acumula histórias, na cama dos nossos afagos. Nesta madrugada em que não houve. Não quero te fazer doer, mas esta sou eu, aprisionada à liberdade da busca. E te quero assim, toda minha, mas só quando tu mesma fores tua, e eu também. Então eu vou, volto, mas como quem nunca partiu. Porque há no meu rastro, toda a minha alma que ardeu por algo ou por alguém.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006


Vida Canibal

Momento decisivo: a câmera dispara o presente, o coração dispara o amor. Me retrata em filtro azul, me espera dentro do mar, quer que eu mergulhe, que vá caçar a pérola. Mas hoje a saudade sangra, chora o existido. Hoje é ontem e amanhã. O que brilha no sorriso da primeira hora, turva na olheira lacrimejar da noite. É o esquecido que se ressente, porque toda novidade assassina. Mesmo que em legítima-defesa. Mesmo que por amor. É um jeito novo de fazer as mesmas coisas. Se olhar no espelho, pousar a mão no rosto enquanto reflete, se ajeitar na cama a espera do sono e da carícia do outro. E apesar de bela, a vida é um trator deslocando antigos caminhos, devorando algumas flores de percurso, sobreviventes, feridas. Porque afinal, é o replantio no solo do meu corpo, na terra de antigos abandonos, de amores esquecidos. Mas voltemos ao presente. Tudo caminha para o que sempre esperei. Então por que os olhos cheios de adeus? É que meu desatino virou discernimento. Meus gritos viraram afagos. Em tudo uma despedida. E eu me despeço. Eu ardo na fogueira do Tempo. Tragédias e devoradoras alegrias? De novo as viverei. Mas choro nesta estação, tanto quanto sorrio e encontro. A criança que pedia infinito, hoje é mulher que pondera, que não tem só utopias, tem metas. Ainda não sei se ela conserva os mesmos mitos, se se lembra de mim, se tem rimas, se fará poesia. Dormirá com a porta fechada ou aberta? Noto, pelo contrair da boca, que a sede de céu persiste. É um bom sinal. Noto, pelos seus olhos, que ainda conserva estados de chuva, que alaga, mas que ainda é sertão em seu nordeste. Sua lua ainda curva de mistérios, pálida e cristalina, num céu púrpuro. O estertor de lágrimas que só o silêncio escuta, permanece assim, indecifrado, surdo. A solidão é um bem e um mal-me-quer eternos. Mas a vida já não é uma ilha. Há pontes, mão com mão. E o coração renova sua batida. Tum. Feliz. Frágil, mas regozijado. Tum. Hoje que ninguém vê, eu beijo o ontem. Tum. O vento descobre lembranças atônitas. Tum. E o futuro me abduz em sua nave hi-tech. A cada passo, o descompasso de marchar pelas avenidas do tempo. Ruas nos meus pés, asas no coração. Uma saudade, um novo afeto. Toma lá, dá cá. Vida devoradora de presentes. Vida canibal. De passados ausentes, de futuros latentes.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006


Filamentos

Teço os caminhos em que eu mesma ando
Rasgam-se-me as vestes cerzidas pelo Tempo
Nua, detenho dos véus da Vida
Retalhos de minha cosedura.

Saciai-vos:



Sábado, Janeiro 28, 2006


Dos imperativos e do tempo dos desejos

A noite roga que as estrelas brilhem uma última vez. O clamor é tão intenso que a luz eterniza no universo o desejo de todos os poentes. E toda noite as estrelas brilham. Não há mais fim para essa promessa de estrela. Já não há começo. Não mais se pergunta quando ou até quando. (Sempre existiu, sempre existirá). O compromisso se renova a cada geração de astros que cintilam, com a mesma força do sem início. Qual lei divina. Qual arquétipo. Qual dado da natureza. Na obscuridade incognoscível dos céus, os sóis sempre alumiam. No mistério das noites, como nos mistérios do querer, nunca mais cessa de ser última vez.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Janeiro 09, 2006


A cada um cabe suas próprias dores, suas alegrias. Mas, e quando as dores já não nos cabem? A quem culpar? À torpe humanidade? A um fracasso pessoal? Ou a um mundo de vilezas, incongruente, incompatível? Ora, e o que somos perante o mundo, senão incongruentes, incompatíveis? Se fosse tão simples, vileza não rimaria com beleza. Sim, porque semânticas que não se harmonizam, rimam perfeitamente. Depois, riem de nós. Porque realidades que não se equilibram, explicam a dinâmica da vida. Se por um lado a generosidade perdeu eloqüencia no presente, deprimida que também anda, por outro, o mundo sempre pareceu ambíguo, competitivo, cruel. Também formidável, de quando em vez. A quem culpar, então? Por mais que eu transcenda, supere, por mais que eu cresça, serei apenas eu, que sou tão só perspectiva de mundo, múltipla de coisa una. E no entanto, com toda a minha frivolidade, com toda a minha pretensão, com tudo que me faz pequena porque sou só humana, também sou eu o meu mundo, a minha cosmogonia, o meu Deus. Sou na exata medida que sinto, vejo, t(r)emo, me encanto, ardo. Profundamente só. O resto são interpretações, conclusões a que eu chego, suposições de instantes, de olhos, de frases. Por melhor que eu possa vir a ser, por mais que eu venha a edificar, sou um fragmento deste mundo que eu só suponho, um mundo apartado dentro de outro, que sou eu, na minha ilusão - busca eterna - de pertencer. Tal realidade não me constrange, porém. A dor não é a da ilusão, essa todos carregamos. Desespera não ter embarcado todos os meus navios, e estar aqui, a divisá-los, tão náugrafos de mar algum. Pesa não ter dado à meu Quixote os moinhos de vento, e à minha razão, o empirismo. Refaço sempre o caminho da volta, antes de ter convocado as horas do meu tempo a viverem como amantes. Esmoreço de covardia ou de amor? Como saber!? Essa fragilidade de tudo, em tudo, esse medo de sombras e sóis, essa alegria sem eco, essa duração de um meio-sonho triste e roto, essa solidão cheia de invalidez, essa vontade esperança de pertencer! Assim dou contorno aos meus lamentos. Sobrevivo em vastas mortes, sim, porque são inaudíveis minhas dores, por mais que se possa ouvi-las. E minhas lágrimas, enchentes em rios que ninguém nadou.

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Sábado, Dezembro 24, 2005


Eu não sei o que este 24/12 representa verdadeiramente. Eu vejo um número a mais naquilo que me situa numa das dimensões do meu tempo: a minha idade. É simbólico, mas até que ponto sou modificada por essa realidade? As passagens fendam minha sorte ou sou eu quem abro alas pro meu destino? Pessoas me dão seus abraços, algumas seus melhores sorrisos, outras, me ofertam apenas formalidades. Muitas me surpreendem, me tocam com palavras de fé, torcem pelo meu futuro. O que faço neste contexto? Também torço? Reflito? Continuo uma vida? Ou invento uma vida? A cara de menina não muda, porém os olhos, na mira de cada ano, envelhecem. Mudam manias, mas os credos fundamentais são praticamente os mesmos. São os mesmos os sorrisos e as lágrimas, ainda que outros. Risos de infância, dores de infância, fases que se projetam sem que haja um dia-rito para isso. Então tudo muda, e a gente só percebe porque nossa roupa não nos cabe mais. Existiu a criança, sobreveio a moça, persiste a mulher. Amálgama de todos os metais da idade, espaço-tempo de um tempo de lembranças, de épocas que se inauguram, de datas no complexo calendário da existência. Entre o resíduo do ontem e o que ainda não veio, crio e recordo. 24/12: uma data cheia de atitude, vergonha, cicatrizes e preciosas alegrias. Rito de passagem deste lugar para qualquer outro em que permaneçam amigos, amores, mãe, irmão, reticências.

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Sexta-feira, Novembro 18, 2005


Testemunha de um pôr do sol

Amo as últimas horas da tarde, sobretudo quando é final de Primavera. Sou devota da noite que principia, cheia de brisa, pondo sombra no corpo, refrescando a gente. Adoro quando os raios de sol, já menos eufóricos, dizem-me: "adeus!"; quando eles me pegam de jeito, brincando com a palidez da pele. Se saio às quatro e meia, cinco, seis da tade, invariavelmente presencio a transformação milagrosa do tédio em encantamento. E por mais desesperada ou aflita que eu esteja, sou por um momento feliz. E por mais feliz que eu possa previamente estar, há lugar cativo para esta ventura ancestral. É quando meus antepassados festejam os mistérios do mundo, com seus ritos pagãos. É quando Nix e o Deus do Sol se beijam, na boca da minha pós-modernidade maravilhada.

(Que poder de conversão a natureza exerce sobre mim! Sou regida pela essência desses enigmas, que modifica o cheiro das horas, desloca massas de ar, faz crescer a grama e o mito).

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Domingo, Novembro 13, 2005


Da cópula dos sentidos, descendeu a ânsia, brincando de ferver na candeia das artérias. Tremiam que tremiam pensamentos! E o corpo, desapaziguado com a calma, era um desastre no manejo da candura - tanta candura por aqui dentro tudo!.. escorrida numa baba de medo, numa gagueira mansa, suando delicada as mãos, prenha de ternura rota. E a paixão, assim, desavisada de jeito, ia eriçando a penugem das vontades, soprando afetos, afogada em desrazão. E a febre adubada de sonhos ia, de um jeito bobo e bonito, adoentando a realidade. Da vigília pro sono, vezenquando encontrava a paz - que me era arrancada dos campos da emoção: pequeníssima flor, tímida de cheiros e gestos, no triste pendor de colher, colher a si. Todavia, eu nunca me queixei: da paz amputada, da dor nos ossos, do desconcerto nos músculos, desafinando a orquestra do coração. Recusei remédios, cessei com a lucidez do mundo. Sentir virou minha doença, minha poesia.

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Quinta-feira, Novembro 10, 2005


Já sentiu saudades do que não viveu? Ou você é daqueles para quem o tempo não cede a deliberações, a condicionais, para quem o instante é o dos acontecimentos presentes, é o segundo vivido em toda intensidade?
Pergunto porque já senti todo tipo de saudade possível: saudades do que vivi - e não vivi. Saudade até pelos outros! Saudades do que viveram - e não viveram. Saudade em todos os tempos e modos. Saudade renitente e obstinada.
Saudades de sentir saudade? Já senti também. Senti quando supostamente não havia por que se lembrar, quando a vida me chamou pro presente de um jeito tão pretensioso, que achei um desperdício ficar cultivando certas lembranças; "coisa de velho", pra ficar no estereótipo, ou de "velho precoce", pra chegar no que muitas vezes sou.
Fiz tantos planos nesses últimos tempos, que ando meio decepcionada comigo mesma, por não concretizar nem um terço do que planejei. A saudade entra aí como contraste, pelo tempo em que sonhar quase bastava; o sonho era, em si mesmo, uma forma de realização. Saudades dos sonhos românticos de pouco tempo atrás, das angústias intermináveis, da melancolia criativa que resistia heroicamente a sua inerente condição de dor, e sonhava com futuros brilhantes, com felicidade plena, com um grande amor.
Não mudou muita coisa desde então. Alguns sonhos resistem, obviamente, outros se renovam, porque não deixei de fazer planos. No entanto, hoje, minha alegria - tão mudanda - tem um q de fúnebre sordidez, porque assassina muitos dos ideais de ontem. A idade avança, na mesma proporção que a cobrança íntima: "É preciso viabilizar, edificar, concretizar", digo pra mim mesma. "É preciso fazer e acontecer", me diz esse mundo louco e competitivo em que vivo.
E o que faço? Listas intermináveis de obrigações não cumpridas, retrospectiva de minhas melhores e piores lembranças. Sintoma de quem sente saudade, é fácil notar. De quem está buscando referências antigas para uma vida que não se fundamenta em seus próprios paradigmas. De quem, por fim, não se encaixa quase em lugar nenhum - e estaria até disposta a tropeçar nas mesmas pedras do caminho, se pudesse voltar a ser a menina que outrora foi (e a que nunca conseguiu ser).

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Sábado, Novembro 05, 2005


Estou à primavera de sensações indóceis. Florações extremas, e no entanto, mudas, só eloqüentes de silêncio e olhar. Discretamente solitária, aguardo pela ventania inconfidente da alma, a fim de que ela cante minhas proezas, revele minhas histórias, as sonhadas e vividas. Minha quietude é de bosques que trazem a urgência dos verdes, revivendo a cada estação, o definitivo da vida. Cresço inesperadamente nessa temporada, feita de noites arrastadas, consumida no ópio de palavras silenciadas pelo medo de morrer de amor. A estrada desses mornos dias é longa demais, a rotina é uma reta que desejo bifurcar porque sonho com curvas de mulher. Sonham as curvas comedidas em mim. Mesmo calando sussurros, palavras, frases inteiras, orquestro-me, alcanço as estrelas dos meus delírios, agigantada por dores e agonias, por ilusões, sóis temporais, secretamente difundida nas minhas entranhas, nas dimensões multiplicadas de meus eus. Minha natureza sabe que, a despeito de quaisquer rios que eu navegue, desembocarei sempre em versos livres; e assim será até que as flores perfumem alegrias e tragédias.

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Sexta-feira, Outubro 28, 2005


Ah, sei lá! Têm coisas estranhas e boas acontecendo, simultaneamente. Estou menos tolerante, e mais flexível, paradoxalmente. Novos e velhos, idas e vindas, rancores e perdão. Tudo ao mesmo tempo agora, aqui dentro. Tenho lido mais, sofrido menos, escutado música esquizofrenicamente, tenho rechaçado a solidão que traz a tristeza, e aproveitado a que instiga o silêncio da busca... Allen Ginsberg agora é importante pra mim, assim como Else Lasker-Shüler, como Ana Akhmátova, e outros homens e mulheres de nome complicado, não sem-razão, poetas; quero aprender alemão, russo e mandarim dia desses, concretizar o que hoje são projetos, vencer desafios antigos e almejar novos, fugir da mediocridade, e a ela retornar, quando eu bem entender. Quero um corpo feito de alma e abrigo, de renúncias, de vontades saciadas. Quero velocidade, pausa, filosofia, silêncio, a sabedoria da terra que é brotação, que é deserto. Quero eternizar o que foi, o que nunca será, o que está sendo, sem traumas, sem vitimizações. Viver na medida de quem sangra e de quem sorri.

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Num prédio que quase beija o morro, uma menina sobrevive. Num quartinho nos confins de Qualquer Lugar, essa menina conversa com as olheiras de estimação. A noite morre, a cigarra zangarreia, faz dueto com o galo que sobrevive à civilização. No mato, no asfalto, ou no inferno, porque é alvorada, cigarra e galo cantam e cantarão. O céu abre as cortinas, o azul volta à cena, as estrelas se apagam. Mas os olhos, os olhos não se fecham. Pelo menos os da menina. Dos olhos, e das olheiras.

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Segunda-feira, Outubro 03, 2005


Extra, extra!

Um dos meus escritores preferidos agora tem um blog. Vale a pena conferir e acompanhar:

www.teofilotostes.blogger.com.br


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Sexta-feira, Setembro 23, 2005


Voz na minha garganta: limite raso! Ecoa finitudes, ruídos, tartamudas expressões. Voz no papel - de sonhar: sidera! Cruza as cintilações dos morfemas, lumia astros, planetas, transfigura-se em estrela:

Cântico de Inspiração

Em qualquer superfície gravarei meus verbos: na pele da flor, no tapete do pé, na parede dos céus, nos papiros de Deus. Onde houver branco, pintarei nuvens de versos delirantes. No banco da praça, na bula dos remédios, nos segredos, nos degredos escreverei.

Viajarei terras distantes, renunciarei à solidão para viver nas multidões das frases. Meus oásis desertificarão, meus Saaras levarão enchentes. Percorrerei cada palmo da palavra que me leva até o suspiro ritmado das vírgulas, a pausa silenciosa dos pontos finais. Vates e inspirados trovadores vão se valer de mim; lascivos e harmoniosos, gozarão intensidades. Violada por poetas, gerarei rimas.

À sombra de árvores convertidas em folhas de papel, comporei hinos que não cantarei.

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Quinta-feira, Setembro 22, 2005


Eu sei que a aflição, a alegria, bem como outras sensações, são estados provisórios do corpo e do espírito, embora possamos entrever alguma constância no jogo de probabilidades que é estar feliz/triste, eufórico/anestesiado, e por aí vai. Sabemos que fatalmente um ou outro desses estados nos acometerá, ou ambos, tornando o sentir uma dialética. Hoje não me senti dialética, ambígua, cercada por complexidades. O vento soprou certeiro nos meus cabelos, e ele dançou. Foi bem simples e esperado. Foi natural. A menina que eu olhei me olhou. A folha que eu pisei fez barulho de folha pisada. Quando senti frio, fez frio mesmo. Senti dor porque era pra doer. E quando foi hora de sorrir, não hesitei em mostrar os dentes. Revesti os olhos com o brilho que só brilha quando se sorri. Houve silêncio e não foi o íntimo, a rua estava deserta. Tudo o que se deu era o que se afigurava, e não outra coisa. Cheguei a me surpreender com a verossimilhança de um real que me é fantasioso, povoado por essa imaginação febril, e pelo meu jeito meio carente de sempre pedir sonho. Senti a sobriedade do meu momento de vida: caminho, estrada, processo. Sei que não é tão simples conceber o presente como processo. Mas não foi surpreendente me olhar no espelho e me achar com aquela cara que eu não terei daqui a dez anos. E houve paz, uma paz rara por dentro.

Instante-ação. Reação-instinto.

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Quarta-feira, Setembro 14, 2005


Não dissiparei as sombras desse quarto, enquanto espontaneamente me envolverem. Assim, meus sonhos não despertam, dissipando-se eles mesmos na lucidez da vigília. Enquanto houver esse opaco em torno, haverá manta e cama para aquecer, haverá corpo sedento, mera sombra na solidão do mundo. Ah, essa orgia lírica por debaixo das cobertas é o que me salva em minha perdição!

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Então existe o mundo! Vou até a janela e me deparo com: janela, cortina, gota, asfalto... É sempre tão bom poder se surpreender com as mesmas coisas. Nem o novo nessas horas é tão inédito.

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Hoje consegui dormir um pouco, ou melhor, fiz com que esse verbo me fosse útil por umas três horas. Mas logo no começo da madrugada acordei novamente. E foi a luta de quase sempre. Dia não é verbo, então não costuma haver muitas rusgas entre em mim e ele. Eu durmo fácil, fácil. Durmo, por sua vez, já foi conjugado. É, acho que meu problema de insônia é problema de infinitivo nos verbos.

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Estou feliz por esse respeito profundo que invade e glorifica minhas palavras mais bestas. É uma brotação sutil da alma, que não nega o corpo, mas faz dele um trampolim pra atingir a próxima brincadeira.

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As sombras me visitam pela última vez. A luz do sol já acendeu ali fora. Deixe-me aproveitar os últimos segundos dessa iluminação íntima. Que paz e que assombros libertadores! Não, não despojarei destas frases tão nuas a dádiva de se dizerem enquanto simplesmente são.

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É porque Deus voltou. Ou ainda, porque eu voltei com Ele dentro. Tornei a percebê-lo, pressenti-lo. Ações supostas de quem realmente ama. Descobri que Deus é meu filtro no mundo, decantando para mim as melhores percepções. Sim, essa é minha definição de Deus.

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Não há como explicar a necessidade de solidão, ou de companhia. No primeiro caso, o meu caso, é porque tudo absorvo, ao limite insustentável da convivência que me desabita. Depois, é preciso ilha pra me comunicar. A segunda coisa tem que ver com a primeira, é claro, pois doar o próprio silêncio é um admirável ato de caridade, com o outro e consigo mesmo.

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Li, em algum lugar, que se deu de presente a quem muito se amava o seu melhor dia, na falta de um objeto de valor. Bom, na falta do meu melhor dia, eu dou os meus melhores pensamentos, discretamente, porque assim me parece mais bonito.

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E, por fim, se o segundo dia de chuva, nubla-me os bons humores, ao menos a segunda noite em claro, embora me tire a inteligência de existir eficientemente no mundo, nutre-me de inspiração, fazendo de mim esperança de sol.


Bom dia!

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Terça-feira, Setembro 13, 2005


Amanheceu chovendo. E eu novamente não dormi. Rotina de vagabundo? Também. Afinal, dessa vez não fui pra faculdade, embora ontem eu tenha conseguido, heroicamente, arrastar-me até lá. Essa é, contudo, muito mais uma rotina do não: não paro de pensar, não durmo, não vou pra faculdade, não gosto do rumo que isso está tomando, não consigo parar de reclamar.
Fico ensaiando um e outro bom humor, só que fraco, canastrão. Coisa de ator que não sabe rir, dar uma boa gargalhada. E como eu dificilmente dou uma boa gargalhada, sorrio amarelo aqui, bocejo acolá, na interminável espera de um próximo coma seguido de uma próxima insônia.
Depois do estio, volto à verborragia de sempre, posso constatar, só que dessa vez com a escolha de temas mais inúteis. Note que chove, não é muito, pelo que se entrevê da janela, mas o suficiente para molhar. Chove por dentro também, mas não por uma ocasional tristeza, é porque chove mesmo - costuma acontecer quando uma alma é lavada, revisada.
O problema é que meu dilúvio pessoal não me encharca; não recebo dos céus a benção simples de um banho ao ar livre. Por enquanto a metáfora do banho não atingiu os sentidos, acho que é isso. Sinal de que essa faxina está só no começo. Seguindo essa mesma lógica, muito escrevo e pouco digo, embora eu queira muito dizer. Mas também quero ser desnecessária, confesso. Assim eu me esqueço um pouco, ou me recrio.
Engraçado que, embora eu não esteja ótima, não estou péssima. Aprendi a arte de não sofrer? Longe disso. Até porque não sofrer nunca não é arte, é apatia. Acho que tal fato se deve às recompensas que venho tendo com essa bagunça interna. Veja só: primeiro, a dor profunda, devassando tudo, fazendo escombros. Isso foi a depressão. Depois veio a lenta, mui gradual e lenta reconstrução íntima. Uma amizade aqui, um desafio acolá, a rotina voltando. Havia passado por limites emocionais e humanos. Aos poucos volto à mediocridade, porque ninguém vive mesmo sem ela, exceto alguns loucos e gênios, todos nós, um pouco dos dois em certas fases da vida. Só que eu não estou louca, embora quase, nem genial. Estou insone.

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Nos pés da moça

Sou os pés da moça
Que corre(m)
Sem saber pra onde.
Eu também corro,
Só que inerte,
Sou toda sentimento.
Subo os degraus da Jornada,
Patino nas pistas do Prazer,
Chutando, por acidente,
Um momento decisivo.
Vou, volto
Pra onde nunca fui;
Sinto apertar o couro da vida.
Repito os mesmos passos,
Fujo do que não tem saída.
De labirinto a labirinto,
Solto as tiras da minha mágoa;
Alcançam-me pontes,
Escarpadas, planícies,
Banha-me o rio Lágrima.
Tropeço outra vez no Querer,
Vou trotando, meio trôpega,
Até a próxima saída.
Salto duas,
Três dificuldades.
Meu salto se quebra,
Minha alma se equilibra,
Passeio, enfim,
Pela Terra Firme da Maturidade.

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Domingo, Setembro 11, 2005


Da minha imaginação já não se depreendem as mesmas farsas. Tornou-se morno conceber ilusões, pôr em movimento uma obsessão, uma palavra doida, uma vertigem. Aterrissar pela janela é esperado. Fazer dueto com o cantor preferido, não é surpreendente. Tomar sorvete com Deus é casual. Já não me perco por querer me ver com os olhos de quem me ama. Reunir hipoteticamente todos de meu afeto numa mesma casa, para lá envelhecer sem nenhuma angústia ou arrependimento, não me causa a mesma ânsia. Salvar a humanidade virou lugar-comum. Sofrer no decorrer de um suspiro, ou inspirar-me continuamente, são hoje meras recorrências de quem muito cismou.
Eu deveria estar contente com o que a fantasia me criou. Mas é morno, é esperado. Pôr em movimento, fazer, salvar. Eu deveria ser grata por fechar os olhos de dia e sentir o frescor da noite. Fechar os olhos de noite sentindo o clarão do dia. Por inventar razões honradas pra minha timidez, que não é mais do que covardia. Por supor um motivo ousado pras minhas insônias apáticas. Eu deveria ser grata. Era pra eu sorrir profundamente ao pressentir que um afeto novo ronda o túmulo de desejos esquecidos e dedos ociosos. Só que nessa intuição não concebo mais que as mesmas utopias já vividas. E não é tristeza, é um cansaço.
Que ninguém saiba, mas me creio doente, como que curada de magia. Não sei por quanto tempo. O fato é que me sobrevém o peso do irreal. Tantas ilogicidades cometi, que hoje olho o sorriso descarnado e falso de um hipócrita, e não atento mais para a redenção possível de outrora. É como se flores não nascessem mais no meu jardim. Ou pior, elas nascem, mas da repetição constituo no máximo um interesse de cunho científico, não de estupefação atribuída ao divino. Não vejo mais em meus dedos, pétalas, carinhos. Tudo se fixou útil, pragmático, real demais.
Ouso delirar de novo. Meus devaneios, contudo, não me superam. Inicio a viagem, e já retorno, curta é sua duração. Sonhar virou clichê. Escrever, uma rotina, que o vício não fez cessar. Se pretendo, a lucidez desvela minha ambição. Não há enganos. Não há afagos. Se mergulho, resvalo-me para o raso. Quase nada me afoga.

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Sábado, Setembro 03, 2005


Intermédios

Sorrir tem algo de hipnótico,
Como também o tem, sofrer.
Partindo desses intermédios,
Tomo para mim que o transe
É viver.


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Segunda-feira, Agosto 29, 2005




Meu armário afetivo está abarrotado de palavras não-ditas. É um guarda-sentimento. Tem emoção pendurada em cabide, tem desejo dobrado, tem interesse amassado no fundo de uma sacola. Se tento abrir suas portas, ele me arremessa covardias, que pra disfarçar, chamo de bom-senso. É que ambos estão na mesma gaveta, e têm quase a mesma cor. E se tem dia que planejo jogar tudo fora, tem noite que eu não durmo, revirando pensamentos guardados. Quando quero me vestir, sei que vou encontrar expectativas gastas, romances que não cabem em mim. O melhor era andar nua, eu sei. Alma não se esconde, ao menos em tese, como um corpo que se guarda atrás de panos intermináveis. Mas o fato é que ela às vezes se encontra tão colada ao corpo, que dele lhe absorve as vergonhas, típicas de vontades recolhidas. A alma não é assim tão pura como se idealiza. Devia andar nua, sim, não por ser desprovida de sexo, quais anjos fictícios, mas porque não reprime contradições. É nosso espelho mais fiel, reflete o que não podemos evitar ou conter - vai ver por isso suas janelas são os olhos. Guardo todos os dias retalhos de minhas descrenças e esperanças. Valorizo cada ilusão que me agasalha, cada verdade que me desnuda. Já não há mais espaço. É tanta lembrança-entulho, quereres que não estreei. Tão egoísta quanto um monopolizador de riquezas, eu não dôo minhas peças. Tão órfã quanto qualquer abandonado, aceito, sem reclamar, o pouco e o muito que me dão.

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Sexta-feira, Agosto 19, 2005


A salvação de um banho

Procurei, procurei,
Procurei sem cessar
O texto,
O contexto.
Vaguei, vaguei,
Nos labirintos de V e de Z.
Peregrina do Idioma,
Com meu cajado esferográfico.
Rasguei, risquei,
A folha com minhas palavras.
Achei, achei,
Inspiração na água,
Na ducha,
Na sonoplastia do banho.
No shhhh,
No plaft,
Na delicadeza das formas.
Abri a torneira dos pensamentos.
Escrevi porque senti
A duração do sabonete no corpo,
O perfume morno das costas.
Ri, recorri ao banho,
Me salvei.
Duelei com a água que esfriava
Quando eu me aquecia.
Joguei xampu nos olhos da sílaba.
Nenhum grande tema.
Eis o meu tema.
A pretensão de se tomar um banho,
Enquanto o mundo entorna.

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Quarta-feira, Agosto 10, 2005



Não é que eu chore demais. Minhas lágrimas é que têm mania de grandeza. Crêem-se dilúvio, e por isso brincam de inundar. De cascata, cachoeira. Fazem correnteza a partir dos olhos, atirando-se queixo abaixo, audazes, sem temores. Quando medrosas, alcançam pescoços, travesseiros, sem o enfrentamento de grandes altitudes. Então umedecem ombros, seios, pretensiosas outra vez. Pensam regar a flor do peito, rubra e desabrida rosa, conquanto o coração se faça borboleta, batendo suas asas mutantes; feita de músculos, sangue, e de ar-dor.

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Quinta-feira, Agosto 04, 2005


O presente mais bonito que recebi

Foi num evento, no mês de Fevereiro, ele não me conhecia. Sorrimos um pro outro, assim que nos vimos, dissemos-nos "oi", entre outras poucas palavras, polidas pelo dever social. Foi quando um delicado amor surgiu.
Ele era uma espécie de orientador naquilo a que eu me dispunha ser orientada. Rezávamos pela manhã, no auditório, eu, ele, e os demais jovens, potências biológicas que ansiavam por uma transcendência puramente anímica. Renunciar aos prazeres do corpo era o meio de se chegar às recompensas do espírito, nisso críamos, dicotomicamente. Nós, santos imolados na carne, deuses invertidos da luxúria. À tarde nos submetíamos a dinâmicas intermináveis, debates bem-humorados, inspiradas reflexões. Recolhíamos-nos cedo, poucas horas depois que o sol se punha. Música de cunho religioso sempre tocava, nas três gradações do dia. Era bonito, alegrava o ambiente, e cantando, nossa fé não nos desviava.
Naquele tempo, eu era o que se pode qualificar de menina obediente e educada. Fazendo-me de cega ante minha própria cegueira, a que me conduziria à navalha do instinto, cultivava virtudes a esmo, como quem planta e não sabe bem o quê. E não era por covardia, acho que era esperança.
No último entardecer, providenciamos bolos, cartões, despedidas. Abraços davam vez à euforia, que não se revelava por risos histriônicos, mas por lágrimas histéricas. Encharcávamos era de pesar pelo retorno. Voltar a um mundo de apelos, de liberalidades aturdidas, de euforias mais eufóricas que as nossas, de consumos rasos e artificialismos de todo jaez, doía-nos. A dor era por não querer abrir mão, inclusive do nosso egoísmo.
Na despedida em grupo, fizemos paródia de amigo-oculto, com nomes fictícios, regras locais, e procedimentos escusos. Fiéis até certo ponto à brincadeira original, não faltaram os performáticos, os tímidos eloqüentes, e os inexpressivos, sempre dóceis, sempre sorridentes, mesmo com a morte por dentro. Encaixava-me um pouco em cada categoria: ágil com os olhos, tímida com a boca, estúpida com as mãos. Pra falar a verdade, nem sou capaz de me lembrar de meu amigo incógnito. Talvez porque preferisse permanecer oculto.
Ele, o protagonista desta história, também participou de nossa confraternização, tendo sido o penúltimo cuja identidade foi revelada, e o último a se apresentar. Meu nome ainda não havia sido citado, e por óbvia que se tornou a brincadeira, vi-me alvo de risinhos e deboches. Desatento ao que se passava a sua volta, levantou-se, muito concentrado em si mesmo. Acariciou o presente, suspirou fundo e disse:
- Não vou proceder como os demais, que antes de dar a conhecer o nome de seus amigos, atribuíram-lhe características contrárias, a fim de dificultar a adivinhação. Por frustrado que sempre se torna esse jogo quando se encaminha pro final, dada a ausência de surpresa, acredito que cabe àquele que lhe dá a última voz, falar com o coração. Não sou poeta, tampouco orador, não sei atuar, por isso com uma frase defino minha amiga, finalmente revelada: ela mora em seus olhos, livre, apenas em seus olhos. Em parte alguma você a encontrará, senão no brilho meio ébrio que deles emana.
Nunca mais o vi. Nunca mais pousei meus olhos nele. Aceitei o presente, devotamente, como água que se oferta a um deserto, como verdade universal buscada por filósofos, enfim comprovada. Como todo o amor de Deus, dirigido a um único e dileto fiel.
Nunca vou me esquecer onde eu morava, também nos olhos dele. Vendo-me pela fresta da alma, ele me excluiu de generalizações, comparações, prerrogativas e preconceitos. Comezinhas insignificâncias, comparadas ao que nos dá sentido de existência, e nos imortaliza no tempo inapreensível de um segundo, tornado especial. Ele não apenas me viu, justificou-me enquanto ser, deu-me voz, motivo, identidade. Deu-me o outro de que eu precisava. Disse: "Ei! Eu te vejo, te abrigo, te explico, te causo", não por caracteres secundários, por deveres de ofício, por filhos que viesse a lhe dar. Fui vista através da chama, que se para os céticos não revela a alma, revela o homem, despido de sua humanidade, ferido de instinto, ardendo desentendimento e desejo. Ardendo loucura, uma certa poesia eternizada no olhar da vítima que perdoa seu algoz, porque lhe entrevê alguma inocência perdida, despercebida, arquetípica - um modo de dispor das mãos, levá-las ao calcanhar, um jeito de suspirar olhando pro horizonte, ou de passar manteiga no pão. Perdão que ele me proporcionou. Olhos que ele me deu, e que não foram só os meus, foram os da humanidade, que sobrevive ao caos, ao amor, à indiferença, sempre que se vê, mesmo que por um instante, refletida num outro que a unifica e eterniza.

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Domingo, Julho 31, 2005


Tanto quanto, ou mais

Penso que seria mui vazio a vida sem vazios. Meus vazios me fertilizam tanto quanto me estancam. Ou mais. A falta pode levar à aquisição de um bem, como a grafite pode levar ao diamante, a concha à pérola, o sal ao mar. Minhas lacunas eu preencho continuamente com a força da possibilidade e da circunstância. Criar é improvisar tanto quanto planejar. Ou mais. O espaço que eu ocupo é o da tela em branco refletida no sonho em cromaqui, a partir do qual o azul leva a qualquer coisa que nele se projete em forma, conteúdo e ação. Será por isso que estamos, eu e a humanidade, em perpétua espera pelo novo? Será por isso que facilmente nos entendiamos, e inventamos novas formas para velhos conteúdos, tanto quanto novos conteúdos para velhas formas?

Penso que seria mais triste se eu nunca houvesse entristecido. Meus dramas me fecundam tanto quanto me esterilizam. Ou mais. A tristeza pode levar ao crescimento interior, como o aprendizado que se inicia com dor, a uma sólida alegria, como a natureza, a algum tipo de Deus. Minha melancolia eu alimento continuamente com a força das minhas imperfeições e autocríticas. Sofrer é se burilar tanto quanto se destruir. Ou mais. O espaço que a desgraça ocupa em mim é o da lágrima que se cristaliza na memória, a partir do qual a estrutura ocular faz refletir as emoções mais intensas. Será por isso que estamos, eu e a humanidade, em busca quase sempre de vibrantes emoções? Será por isso que rejeitamos com muita freqüência a atmosfera morna dos sentires, e inventamos amplitudes diferentes para uma mesma sensação, tanto quanto multiplicamos sensações de mesma amplitude?

Não sei, eu não sei. E esse não saber é que me inaugura.

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Sexta-feira, Julho 29, 2005




Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.
Maria do Rosário Pedreira


Disse adeus a um medo. Na despedida, tantos outros foram embora! Agora, com eles longe, fico sem saber se a passagem era de ida e volta. Mas que me importa, por ora? Cresci em segundos, ali, na plataforma da vida, embarcando os temores. Mergulhei na leveza de me desprender, salgando e azulando os sentidos. Como se tudo a partir de então fosse possível, mesmo não sendo. Certa inocência vi recuperada, reconduzida ao encanto de ignorar com sabedoria. Depois de séculos, livre, livre de novo...! Os mais chatos me dirão: "mas tal fato só pôde se dar porque é a resultância de um processo". E eu não sei, Doutor Racional? Só que me refiro ao aspecto mágico de uma conquista. Acordar no meio da noite, com a surpresa da paz, vinda não sei de onde, ciente de que tudo o que se tem é a momentânea existência (ainda que a reconfortemos com futuros ou passados gloriosos, ainda que a fustiguemos com esses mesmos pré e pós). E se alegrar com o nada que é a vida, senão sua recriação constante. Dia após dia, dor após dor, alegria depois de alegria. Olhar com bons olhos a marcha incessante de um incógnito tempo. Não temer tanto perdas, solidões; entregando-se apenas à brisa que sopra o presente, no máximo torcendo para que haja sorriso no próximo desjejum. Quem sabe três novas alegrias no almoço? Mas vem pra cá, brincar de montar o destino não é tão legal quanto aprender uma nova lição! Veja só, olhe como é que se faz. Não gosta? Ah, deve haver outras formas de se fazer. Não há? Invente-as, pois. Melhor reencarnar várias vezes numa mesma vida do que esperar que a Divina Providência o faça. Liberte o que há para viver, com coragem, parindo novas possibilidades. Só não dê nome, sobrenome, e uma única função para o existir. A vida tem muito mais sabor quando é ainda só barro e menino.

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Domingo, Julho 24, 2005


[ Por e-mail, ao coração ]

De repente uma saudade. De nossas palavras, outrora confessadas, de uma compreensão mútua das sutilezas que nos permeiam, e que nos movem num mesmo sentido - para dentro; de uma percepção intimista da vida, que sempre me emocionou, mas que infelizmente não impediu meu afastamento (de nenhuma maneira intencional, porém inevitável), dadas as fortes correntezas de meus desnorteios. Mas eu sempre volto para a costa segura de nossas confissões (líricas e loucas!). Não volto? Morrendo de sede, de saudade, de não saber por que, entre confusa e grata, no que antecede a dor, o medo, o mergulho abismal em mim. Resta, entretanto, aprender como que se faz para voltar à superfície, antes da isolada imersão, da ausência plena (ainda que temporária) de perspectivas. Eu sempre retorno, mesmo não partindo inteiramente (e não sabendo como). Em parte presente, em parte ausente, distante das relações objetivas entre comunicantes (não sabes como são impalpáveis as células do meu dizer?!), porém fiel ao ato da enunciação, dando-te pistas de mim, conquanto por palavras que se prestam muito mais à poesia das palavras que a qualquer outra coisa. Embora sumidiça, sou inegavelmente parte destes mares. De repente uma certeza. A de que isso tudo não termina, de que se fortalece, em reencontros eternos, em despedidas infindas.

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